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“Entro no jardim, percorro os seus caminhos, ... acabo por me sentar numa pedra, à minha frente como que saída de uma gruta ergue-se uma imagem iluminada por uma ténue luz de outono, este ambiente confere-lhe uma aparência quase divina. Neste jardim que “pertence” a Guerra Junqueiro encontro-me com Antero de Quental, é com ele que venho conversar - questiono-o sobre o Paraíso…” J.D., Jardim da Estrela, Dia 1 - 2 de novembro de 2020, 12 horas e 37 minutos
No outono de 2020, em plena pandemia observei o Jardim da Estrela, e, numa espécie de auscultação mediada por um gravador, registei vários sons do ambiente que ali se vivia: ... um grupo de crianças que veneravam uma árvore imensa, o vento que soprava as folhas nas árvores… Alguns dias mais tarde, partindo dessas “paisagens” sonoras, voltei ao jardim, com uma câmara artesanal, feita de cartão e que tinha como objetiva uma lupa, para tentar reproduzir as imagens que correspondessem a essas paisagens sonoras. Algumas dessas imagens foram expostas em 2021 e retratavam aquilo a que na altura chamei de “Paraíso Velado”. Em 2024, apresento de novo essas imagens, agora em vez de expostas na parede, elas estão dispostas num livro – quase álbum de família. Talvez não seja um álbum de família, nem tampouco uma caixa onde costumamos guardar todas as memórias e fotografias que foram impressas desde que nascemos. (...) é tudo tão efémero.
José Domingos







O JARDIM DAS AMOREIRAS foi o lugar escolhido por Vieira da Silva para acolher o seu acervo. As árvores que lhe dão nome (e que partilham agora o espaço com uma variedade imensa de outras espécies) alimentavam os bichos-da-seda, que alimentavam por sua vez a fábrica de tecidos, futuro edifício do Museu. Ao seu lado, ergue-se a imponente Mãe d’Água. Neste espaço, impõem-se desenho e estrutura, contrastando com a natureza orgânica das árvores centenárias. Este jardim faz parte do meu território emocional especialmente pela admiração artística e humana pelo casal que o “habita”: Maria Helena e Arpad. Procurando o desenho e as estruturas - não os da pedra e de cimento, ou mesmo o dos quadros que observo aqui ao lado, mas os que se escondem também nos espécimes que se podem recolher no jardim - flores, folhas, frutos, fungos - observo-os com o olhar de um pequeno inseto, cada pequena porção uma nova paisagem.
“Il n’existe pas dans la nature de fragments. Le plus petit des morceaux est encore le tout. Chaque miette est l’univers...” In “Les Ombres Errantes”, Pascal Quignard
Magda Fernandes


Os espaços verdes têm uma importância crucial e crescente dentro das malhas urbanas. Mais do que os aspetos científicos desta importância, são lugares onde se criam e cruzam experiências e memórias individuais e coletivas. Têm ainda a capacidade de nos fazer lembrar a nós, seres urbanos, do lugar de onde vimos, ao qual pertencemos, e dentro do qual vivemos.
O projeto Paradise Found foi lançado pelo atelier Imagerie - Casa de Imagens em 2020, em plena crise pandémica. Neste período em que fomos obrigados a reaprender a forma como nos relacionamos com os nossos territórios e uns com os outros, os jardins foram ainda, paradoxalmente, um abrigo, um local onde nos podíamos sentir seguros juntos, mas separados. Além disso, a Natureza reivindicou todos os espaços deixados vazios pela suspensão de uma série de atividades humanas. Nós parámos, mas ela não. O som dos aviões deu lugar ao chilreio dos pássaros, as ervas dos passeios puderam crescer a alturas nunca experienciadas, por falta de passos que as dominassem, ou máquinas que as cortassem, as árvores continuaram ali, como estavam e como estarão, prontas para serem pulmão, abrigo, recreio e sombra.
Este projeto tem como objetivo a promoção da reflexão sobre estes aspetos transpondo-a para obras visuais que enformam as abordagens de cada autor em modos de produção conscientes do impacto que podem ter no sistema sobre o qual refletem e que se materializam em obras criadas, por exemplo, com recurso a materiais orgânicos (na produção das imagens e na apropriação de matérias) que lhes conferem um caráter singular e por vezes, tal como a própria natureza, efémero.
Imagerie - Casa de Imagens 2024